Mbuyisa Makhubo carrega o corpo do seu amigo de 13 anos de idade, Hector Petersen.
A foto do jovem Peterson, assassinado a balas pelas forças do apartheid e carregado por um de seus companheiros aos prantos deu a volta ao mundo e originou uma mobilização internacional sem precedentes contra o regime racista de Pretória.
Em 16 de junho de 1976, milhares de estudantes sul-africanos "enraivecidos e audazes", como os definiu Nelson Mandela, mudaram a situação tanto em seu país como no exterior, onde as imagens da repressão brutal e cega do regime segregacionista tiveram um enorme impacto.
Os jovens começaram a pensar que os mais velhos não lutavam o suficiente, que deviam fazer algo.
O fator que desencadeou este movimento foi a decisão do governo do apartheid de impor o afrikaans como a língua de ensino, juntamente com o inglês.
Tratava-se de uma medida humilhante e cruel porque o afrikaans não só é "a língua do opressor", mas que vários estudantes negros falavam pouco ou mal este idioma, surgido do holandês.
"Os alunos não conseguiam aprender em afrikaans e os professores não podiam ensinar nesta língua", explicou Naledi Pandor, que vivia no exílio na época da rebelião e foi ministra da Educação após o fim do apartheid.
"Era uma política estúpida", mediante a qual o governo do apartheid esperava "impor sua ideologia", acrescentou.
Na manhã do dia 16, milhares de estudantes invadiram as ruas de Soweto, um município do sudoeste de Johannesburgo.
A manifestação começou em calma, mas se descontrolou quando a polícia abriu fogo. Os estudantes responderam atirando pedras. Em seguida, houve cenas de pânico.
Aquele dia deu origem a uma onda de indignação no exterior e marcou na África do Sul o ponto de partida de uma rebelião que se espalhou por todo o país e em poucas semanas deixou centenas de mortos: cerca de 700 outros manifestantes perderiam a vida nas manifestações que se seguiram (oficialmente, 95).
"Os acontecimentos deste dia tiveram repercussões em todos os municípios da África do Sul. Os funerais das vítimas das violências do Estado se tornaram locais de motins nacionais. Subitamente, os jovens sul-africanos se deixaram levar por um espírito de protesto e rebelião", escreveu em suas memórias o ex-presidente sul-africano e Prêmio Nobel da Paz Nelson Mandela.
Embora esta decisão de impor o afrikaans tenha sido um detonador, esta revolta traduziu também um agudo sentimento de frustração e uma profunda cólera. Foi a conseqüência de uma segregação racial sistemática, acentuada por um contexto econômico difícil depois da euforia dos anos 60, cujas conseqüências foram pagas em primeiro lugar pelos negros.
O dia 16 de junho é atualmente feriado na África do Sul e Dia da Criança Africana.